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Quando o dado deixa de ser indicador e passa a ser cuidado

1 de setembro de 2026

Autor: William Pereira | Sobre o autor: Clique aqui. 

Reflexões a partir do painel “Valor em Saúde e Gestão de Performance – Dados que contam histórias: medindo valor para além de números”, no Congresso SOBREXP 2026.

Eu sou administrador de formação. Talvez por isso, desde que comecei a trabalhar com Experiência do Paciente, sempre tenha tido uma relação muito próxima com números, indicadores e gestão de performance.

Mas, ao longo dos anos, uma convicção foi ficando cada vez mais clara para mim: um Indicador, sozinho, diz muito pouco sobre uma Experiência.

O NPS é importante. Os indicadores assistenciais são importantes. Custos, tempo de permanência, complicações, readmissões, produtividade, tudo isso importa.

Mas existe uma pergunta anterior a todas essas:

“O que esses números estão nos dizendo sobre a vida das pessoas que cuidamos?”


Foi com essa inquietação que tive a oportunidade de moderar, no Congresso da SOBREXP 2026, o painel “Dados que contam histórias: medindo valor para além de números”, ao lado de Sabrina Bernardez, Aline Chibana, Cristiano Valerio e Edgard Stuber.

Saí daquela conversa com duas falas em especial que não saíram da minha cabeça e fiquei pensando que talvez estejamos diante de uma mudança importante na forma como entendemos performance em saúde.

O que importa para o sistema é necessariamente o que importa para o paciente?


Sabrina começou sua participação contando uma história.

Não sobre uma nova tecnologia. Nem sobre um grande avanço terapêutico. Mas sobre uma pergunta que não havia sido feita a uma paciente com uma doença grave:

“O que realmente importa para você?”

Essa pergunta muda muita coisa.

Porque aquilo que nós, profissionais e gestores, definimos como um bom resultado pode não coincidir completamente com aquilo que uma pessoa considera um bom resultado para a própria vida.

Para um paciente, resultado pode significar voltar ao trabalho.

Para outro, conseguir realizar suas atividades cotidianas.

Para alguém em tratamento oncológico, pode significar ter mais tempo com a família, viver com menos sintomas ou preservar determinada capacidade que lhe permita continuar fazendo aquilo que dá sentido à sua vida.

É aqui que conceitos como PROMs e PREMs deixam de ser apenas instrumentos de mensuração e passam a representar algo maior: uma tentativa de incorporar a perspectiva da pessoa à definição de resultado.

E isso traz uma provocação importante para quem trabalha com gestão:

“Podemos ter excelentes indicadores e, ainda assim, não estar medindo aquilo que realmente importa.”


Há uma história escondida dentro de cada indicador

A apresentação da Aline tornou essa discussão ainda mais concreta.

Ao contar a trajetória do Escritório de Valor do A.C.Camargo Cancer Center, ela trouxe um elemento aparentemente simples: tempo.

Quanto tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento?

Quanto tempo em cada etapa da jornada?

Quanto tempo até retornar à vida cotidiana?

Em oncologia, tempo não é simplesmente uma variável operacional. Para quem está vivendo um câncer, ele assume outro significado.

Quando olhamos apenas para a média, podemos concluir que determinado processo está funcionando adequadamente. Mas a média pode esconder histórias completamente diferentes.

É aí que os dados começam a contar histórias.

Eles mostram onde uma jornada está funcionando e também onde alguém está ficando para trás.

“Medir valor não significa entregar valor.”


Talvez uma das frases que mais tenha ficado comigo naquele painel tenha sido a ideia de “fechar o loop”.

Porque existe uma diferença enorme entre coletar um dado e utilizá-lo para mudar alguma coisa.

Podemos construir dashboards sofisticados.

Podemos acompanhar dezenas de indicadores.

Podemos aplicar questionários de experiência e qualidade de vida.

Podemos produzir relatórios impecáveis.

Mas a pergunta continua sendo:

“O que acontece depois que o dado chega?”

A experiência compartilhada no painel mostrou uma possibilidade interessante. Quando uma informação relatada pelo paciente sinaliza uma piora, o dado pode gerar um alerta e provocar uma intervenção da equipe.

Nesse momento, a mensuração deixa de ser retrospectiva.

O dado deixa de servir apenas para nos contar o que aconteceu no último trimestre e passa a nos ajudar a decidir o que fazer agora.

Essa distinção me parece fundamental.

“Medir valor é observar.

Entregar valor exige agir.

E então chegamos ao desperdício.”

Essa discussão também nos obriga a enfrentar um tema que nem sempre é confortável: custo.

Valor em Saúde não pode ser discutido sem sustentabilidade.

Mas reduzir desperdício é muito diferente de simplesmente reduzir despesas.

Um exemplo apresentado pela Aline ilustra bem essa diferença: a navegação do paciente.

Quando alguém conhece a jornada, coordena as transições, acompanha os protocolos e ajuda o paciente a atravessar um sistema complexo, podemos reduzir complicações, internações, idas ao pronto-socorro e outros eventos evitáveis.

Há benefício para o paciente. Há benefício para o sistema.

Mas surge um paradoxo:

“Quem investe na intervenção que produz esse valor nem sempre é quem captura economicamente o benefício gerado por ela.”


E essa talvez seja uma das discussões mais importantes para os próximos anos.

Se continuarmos remunerando predominantemente volume, enquanto desejamos um sistema orientado por valor, estaremos colocando incentivos e propósito em direções diferentes.

“Talvez precisemos rever o que chamamos de performance.”

Saí do painel pensando que talvez precisemos ampliar nossa própria definição de Performance em Saúde.

Performance não deveria significar apenas fazer mais, mais rápido ou com menor custo. Deveria significar produzir melhores resultados para as pessoas, utilizando os recursos disponíveis de maneira responsável.

Isso exige integrar dimensões que durante muito tempo administramos separadamente: Desfechos Clínicos, Experiência, Qualidade de Vida, Pertinência, Custos, Desperdícios e a própria Voz do Paciente.

E exige algo ainda mais difícil: transformar informação em decisão.

Porque dados não geram valor simplesmente por existirem.

“Eles geram valor quando nos ajudam a enxergar algo que antes não enxergávamos e quando aquilo que enxergamos muda o que fazemos.”

Talvez seja justamente aí que um dado deixa de ser apenas um indicador.

E passa a fazer parte do cuidado.

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  • Escritório/Programa de Experiência do Paciente/Humana (Planejamento, Implantação e Consolidação);
  • Estruturas para Co-Design (Parceria no desenho da Estratégia, Soluções e Melhorias);
  • Métricas e Gestão de Experiência do Paciente/Humana;
  • Mapeamento e Otimização de Jornadas (Experiência & Eficiência);
  • Programa/Plano de Engajamento Institucional em PX.

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